Ontem na madrugada chuvosa, em um canto do viaduto, um homem sentado, enrolado em um lençol velho, com a cabeça baixa, apoiada no braço. Que dor. Que solidão. Que desamparo. Quem vai olhar por ele? Eu passei de carro e fiquei triste. Muito triste. Mas, não fiz nada. Nas sensações, estamos sempre sós.
Acabei de perder o caminho. Saí da rota. Olhei por um minuto para o lado, e, quando voltei, estava sem ele. Continuei caminhando assim mesmo. Estava escuro. Pisei em algo. Algo macio e duro ao mesmo tempo. Tirei os sapatos para sentir melhor. Encostei a sola do pé.......era uma cabeça. Sem dúvida era uma cabeça - A dele! Tive vontade de chutar. Bater com o calcanhar. Aproveitar que estava frente a frente com a auto-suficiência em forma de cabeça e me vingar. Lembrei do corpo que agora, longe daquela fria-cabeça-pensante, deveria estar acessível, disponível. Um corpo que sente, age e não pensa. Um corpo com uma cabeça perdida. Uma cabeça que não sustentava nenhum sentimento. Nem deixava que alguma parte do seu corpo sustentasse. Eu detestava essa cabeça!! Saí à procura do corpo dele e encontrei, não muito longe. Finalmente ficamos a sós, eu e Ele - o corpo sem cabeça. Com um gesto de corpo que sente, age e pensa, arranquei a minha cabeça e dei para ele. E meu corpo, por ter ficado sem cabeça, passou a odiar o corpo dele.
Um amigo de minha mãe soube que eu gostava de rock, e, aproveitando que a pessoa que mais andava comigo era um sósia de Johnny Rotten, resolveu me presentear com dois vinis importados do Sex Pistols e mais um do PIL. Naquela época, nenhum dos meus amigos tinha nem sequer gravação daqueles discos. Era um sonho. Resolvi fazer uma festa de boas-vindas aos meus novos companheiros. A casa ficou cheia, todos os meus amigos queriam ver de perto as raridades. Quando a festa estava acabando e meus disquinhos finalmente foram descansar, percebi que dois deles não estavam em lugar nenhum. Haviam sido roubados. Muitas pessoas não estavam mais lá. As que restaram - as mais íntimas - me consolaram dizendo que alguém deveria tê-los pegado emprestado e que os devolveria com certeza. De manhã, telefonei para cada uma delas. Com voz de choro informei o sumiço e fiz uma campanha de não-sobrevivência sem meus discos de volta. Duas semanas depois, recebi o telefonema de um amigo e a informação de que uma pessoa anônima tinha resolvido devolver os discos porque ficou com muita pena de mim - não pensavam que eu iria ficar tão triste. Agora, eu era como eles: puro rock´n´roll. E o anônimo? Indubitavelmente.......Johnny.
sábado, 8 de janeiro de 2011
É muito ruim ainda não estar em casa.............é uma sensação de desamparo.........de não ter como se sentir bem com você mesma............mas vai passar.
E a folha sobe e a folha desce. Tranquilidade e equilíbrio, só com a falta do vento.
E essa tristeza, e a recordação dos olhos de meu pai naquele momento, sem saber o que acontecia. Sem saber que não iria mais ver. E o tempo que passa infeliz, quando as folhas perdem o movimento.
E o amor sobe e o amor desce. Muito vento não ajuda o equilibrio. Mas, por agora é só o que temos...... movimentos oscilantes.
½ quilo de cogumelo trazido da ilha, 2 latas de leite condensado e, finalmente, minha mãe ia fazer o tão prometido doce de cogumelo. Segundo ela, além de ser uma delícia, a viagem era das melhores. Era final da tarde de um sábado....todos estavam reunidos na cozinha do apartamento. Parecia uma comemoração, minha mãe e meus amigos. Eu observava e adorava. Estava com quatorze anos e me sentia o máximo – minha mãe fumava maconha, conversava sobre cinema, teatro, literatura, fazia faculdade de antropologia, era dona de um restaurante natural, namorava uma mulher e sabia fazer doce de cogumelo. Meus amigos adoravam a minha casa. Eu tinha selecionado alguns discos para esse dia. Na época, escutávamos tudo o que Marcelo Nova mostrava no seu programa de rádio. O doce ficou pronto, com cheiro de brigadeiro branco. Depois de esfriar, a panela começou a passar de mão em mão e a colher de boca em boca, menos pela minha. Após algumas músicas e muita conversa, meus amigos resolveram sair do apartamento. O prédio ficava em frente ao mar e eles desceram para a praia. Eu fiquei em casa, olhando da varanda até eles sumirem na noite. Já era madrugada quando escutei uma gritaria lá embaixo. Eles tinham voltado. A viagem não tinha sido tão doce na cidade. Um deles tinha visto um casal se agarrando atrás de uma banca de revista e pulou pra cima do homem e o atacou com socos e pontapés. Ninguém sabe o que ele viu ali. Largaram o homem todo ensangüentado, a mulher em prantos e fugiram para minha casa. Desci. Ele – o da viagem violenta – me abraçou chorando e me deu um beijo suave na boca. Em segundos, já estavam dentro do carro, virando a esquina. Não tive tempo de fazer nada, mas descobri que o doce de cogumelo não estava com leite condensado suficiente. Fiquei com um gosto amargo na boca.
Clarice ia passar o primeiro reveillon na casa nova. Estavam morando juntos. Dessa vez, nada de pular sete ondinhas, de jogar rosas e alfazemas para Iemanjá....... Soltariam fogos, brindariam com champagne, fariam os pedidos e estariam junto da família. Faltavam cinco minutos para a meia noite. Clarice estava feliz. Ele dizia que a amava a cada 5 minutos. Tinha acabado de dizer. Então estaria tudo certo, faltavam 5 para a meia noite. Contagem regressiva. Todos juntos. Ele estava do outro lado. Com fogos na mão. Não ia dar tempo de chegar perto. Ela foi se aproximando mesmo assim. E os segundos também. Meia noite. E ele continuou preocupado com os fogos e ela, esqueceu de agradecer por tudo de bom e esqueceu,também,de desejar coisas boas para o próximo ano. Mas a lua estava lá, sorrindo de novo aquele sorrisinho desenhado no céu. E não importava o ano, era apenas para Clarice adorar.